Sandra Lucíola Martin Catropa
. Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo - SBPSP
. Professora do Curso de Especialização em Psicanálise para Formação
de Psicoterapeutas - UNIFESP
. Mestre em Psicologia da Saúde
TRANSTORNOS ALIMENTARES DO PONTO DE VISTA PSICANALÍTICO
Nos últimos tempos a incidência de transtornos alimentares como anorexia e bulimia aumentou significativamente.
Muitos livros sobre o tema tem sido escritos e pesquisas tem sido realizadas em várias áreas da saúde, como psicologia, endocrinologia, nutrição e psiquiatria.
Evidentemente questões culturais importantes estão presentes na manifestação destas doenças.
Atualmente, o culto ao corpo e a imposição de um padrão de beleza no qual imperam a magreza e, a busca pela juventude eterna, veiculados pela mídia, que nos impõe um determinado “shape”, contribui fortemente para a manifestação de patologias nesta área.
Nossa sociedade de consumo leva os indivíduos a cultuarem a imagem em detrimento de valores espirituais, morais e sociais; o “ter”, toma o lugar do “ser”, conduzindo inúmeras pessoas a serem workaholics, para poderem consumir produtos que se renovam numa velocidade assustadora, bem como precisam parecer sempre jovens, com corpos esculturais, daí transformarem-se em consumidores de academias, shakes que substituem refeições, plásticas como recurso na busca de uma perfeição inatingível.
Mas, os valores sociais e culturais, não são os grandes vilões, não são os únicos a moldarem os indivíduos e a contribuírem para que assumam uma determinada personalidade.
Somos produto de uma complexidade de fatores como nossa constituição biológica, nossa herança genética, nossa história de vida e a cultura na qual estamos inseridos.
Problemas na conduta alimentar remontam, do ponto de vista psicológico, aos primórdios da vida infantil. Afinal, os primeiros contatos que o bebe tem com o mundo se dão via alimentação e cuidados maternos, de modo geral.
O alimento ingerido e todo o “clima” que faz parte do entorno do processo de alimentação, representam para o bebe a imagem do mundo externo e do que este pode lhe oferecer.
Assim, a alimentação e o ato de comer vão ao longo da vida prestando-se a simbolizar vários estados emocionais.
Desta forma, quando uma adolescente recusa-se a comer, porque ao olhar-se no espelho ve-se gorda, a despeito de encontrar-se abaixo do peso, nisto há muito mais do que uma influência da cultura.
Da mesma forma, evidencia-se a participação de fatores emocionais naquelas pessoas que realmente se encontram acima do peso e que não conseguem emagrecer, ou se emagrecem, não conseguem manter o peso, sem que haja problemas orgânicos para isto.
Por isso, o tratamento dos transtornos alimentares deve ser efetuado por uma equipe multiprofissional.
Obrigar uma anoréxica, ou uma bulímica a ingerir a quantidade correta de calorias e medicá-las, sem um trabalho psicológico, não trará o resultado esperado. Se apenas tentarmos eliminar os sintomas, sem trabalhar as suas causas, não atingiremos nossos objetivos.
O QUE É A ANOREXIA E COMO SE MANIFESTA
Definição : - “orexis” – (origem grega) = desejo em geral, não apenas no comer
- a + orexis = anorexia – negação do desejo
- conflitos na área do desejo e formas bizarra de expressão
Incidência : - 90% dos casos – meninas adolescentes (bulimia também)
- em menor freqüência – meninas entre 7 e 12 anos
- meninos são 5% a 15% dos casos / idade entre 10 e 12 anos
- para alguns autores, nos meninos é semelhante à anorexia feminina
Quadro Clínico :
- jovens com emagrecimento superior a 10% de seu peso - amenorréia há pelo menos 3 meses (ausência de menstruação)
- não apresentam problemas orgânicos e problemas psíquicos são evidentes
- não se preocupam com o emagrecimento e, ao contrário fazem ginástica e
dietas por sentirem-se acima do peso
- a perda de peso é valorizada como sinal de auto-disciplina e sinal de eficácia
dos métodos utilizados
- engordar é sentido como fracasso no auto controle
- exigentes consigo mesmas, perfeccionistas
- desinteresse pela sexualidade
- hiperatividade motora e intelectual
- procuram cumprir com as expectativas que imaginam terem delas.Inclusive a
capacidade intelectual é muitas vezes utilizada no sentido do cumprimento de
regras e de uma adaptação normativa
- instalação da doença é lenta e progressiva
Fases:
1ª Fase
Desencadeantes : - luto
- separação
- sedução
- traumatismo
Inicio : - decepção com o pai ou com a mãe
- suposta falta de apetite ou desejo de emagrecer
- humor se modifica dando mostras de um componente depressivo
Ás vezes é difícil para os pais perceberem a gravidade do quadro pois, os sintomas são muito próximos do que ocorre na adolescência, de modo geral 2ª Fase
- depressão dá lugar a um certo equilíbrio em função de perceber que emagre-
ceu (embora nunca seja considerado o suficiente)
- a fonte de satisfação parece ser o controle sobre si mesma, de suas necessida-
des corporais e consequentemente dos outros (quanto mais os pais alertam,
mais se fixam em seu projeto)
- é nesta fase que a família procura ajuda
- família muito angustiada com a indiferença da paciente
A partir desta fase a evolução é variada:
- retorno da angústia e da depressão
- certo empobrecimento de interesses
- aparecimento de condutas bulímicas seguidas ou não de vômitos provocados
(é comum a alternância entre a anorexia e a bulimia)
O QUE É A BULIMIA E COMO SE MANIFESTA
DEFINIÇÃO: - “Fome de Boi” – vontade incontrolável de comer, de forma
indiscriminada, gulosamente, em pouco espaço de tempo, sem preocupação com quantidade,
qualidade ou combinação dos alimentos. Desencadeantes : - sentimentos de desamparo e solidão ou, ao contrário, excitação e prazer
Quadro Clínico :
- ingestão impulsiva e voraz, geralmente às pressas e às escondidas
- antes do episódio bulímico, excitação e depois dele mal estar e vergonha
- episódios podem durar muitas horas e repetirem-se várias vezes ao dia
- os alimentos ingeridos são os mais accessíveis, ou sempre o mesmo tipo de
alimento, ou alimentos mais regressivos (derivados do leite:manteiga, chan-
tilly)
- as pacientes tem consciência do caráter patológico de seu comportamento e
sentem medo de não poderem mais se controlar
- o único limite é a impossibilidade física de colocar mais alimento no estoma-
go, experimentada pela dor
- o vomito é um recurso que recria o vazio e alivia a dor, e ao mesmo tempo, marca a interrupção do acesso bulímico.
Os fatores emocionais envolvidos nos dois quadros remontam a períodos primitivos de vida destas pacientes e os problemas e conflitos aparecem na adolescência, ou inicio da puberdade, em conseqüência de toda a demanda que este momento evolutivo coloca.
Assumir uma nova identidade, a independência em relação aos pais e, sobretudo a mãe; dar conta de um corpo feminino, de seus desejos e de sua sexualidade são algumas das questões com as quais estas pacientes devem lidar, como qualquer adolescente, só que estas, em especial, não puderam desenvolver-se emocionalmente de forma adequada.
Sua estrutura frágil e a dependência afetiva a impedem de enfrentar os embates propostos pela vida e a única saída encontrada é via transtorno alimentar.
Não é possível neste resumo abordar a complexidade destes quadros, mas acredito ter dado uma idéia geral do que ocorre.
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